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CMSP: o Templo máximo da Moçada dos anos 60 e 70

Publicado por: Círculo Militar em 09/06/2021 -

As famosas domingueiras circulistas marcaram época.

Os anos 1960 representaram a concretização de projetos culturais e ideológicos lançados na década de 1950, que havia chegado ao seu fim marcada pelo sentimento do pós-guerra.

Jovens de topete, jaqueta de couro e jeans, em motos ou lambretas, com uma rebeldia ingênua e moças bem comportadas, que trocaram as saias

rodadas por calças estilo cigarrete, evidenciavam a busca pela liberdade.

A nova década que começava já prometia grandes mudanças no comportamento, iniciada com o sucesso do rock and roll e de seu maior símbolo: o cantor Elvis Presley.

Na primeira metade da década de 1960, ficaram registrados o idealismo na área política e certa inocência nas manifestações socioculturais. O outro período, de 1966 a 1968, foi marcado pelas manifestações e palavras de ordem nos protestos juvenis da contracultura.  A partir de 1969, o espírito dos anos 1970 começa a se definir.

Essas características são tão evidentes que podem ser claramente percebidas até nas músicas compostas pelos Beatles, a banda mais conhecida do planeta.

E toda essa efervescência chegou ao Brasil. A cultura brasileira sofreu transformações, e o país vivenciou uma série de metamorfoses.

A Jovem Guarda fazia sucesso na televisão e ditava moda. Além disso, os festivais, exibidos pelos canais de TV, se tornaram um divisor de águas.

Os garotos de São Paulo, impulsionados por toda essa energia, montavam seus conjuntos e ensaiavam músicas dos Beatles e dos Rolling Stones nas garagens de suas casas.

Apresentavam-se em festas, bailes e clubes apenas pelo prazer de se divertir. Foi a partir daí que as domingueiras viraram uma “febre”.

As festas que aconteciam aos domingos nos clubes paulistanos ficaram famosas, e o CMSP foi o templo máximo dessa geração.

O ator e músico Milton Levy conta como foi a estreia do palco do Salão Social. “O CMSP tinha uma boate, e nós tocávamos lá aos sábados no período da tarde enquanto o salão estava sendo construído. Minha banda praticamente inaugurou o Salão Social.”

Levy, Zé Marcos, Pinha, Zé Eduardo e Xilo, o único circulista do grupo naquela época, eram integrantes da banda Os Maníacos, que
interpretava músicas dos Beatles, sucesso absoluto entre os jovens. Vestidos a caráter, o grupo agitava o público e fazia sucesso. “Tínhamos até fã-clube.

Tocávamos praticamente dois a três domingos por mês. Os Maníacos cedeu espaço para bandas que estavam bem mais profissionalizadas. O CMSP foi muito marcante na vida de muitas pessoas, principalmente na minha”, afirma.

Há cerca de 20 anos, surgiu a possibilidade do então baterista Levy, agora um consagrado ator, se tornar sócio. Quando passa pelo Salão Social, se recorda dessa época de ouro.

Com o sucesso das domingueiras, cada encontro passou a reunir mais de mil jovens para curtir shows de bandas que se tornaram bastante populares como a Sunday, Watt 69, Kompha, Lee Jackson e Memphis.

Fundada em 1965, pelo baterista Mario Cerveira Filho, o Marinho, a Watt 69 também foi precursora das domingueiras circulistas, como
afirma Jorge Adamo, o Bidu, vocalista da banda.

“Eram domingos marcantes, com casa lotada e a gente se apresentava pelo menos duas vezes por mês. Tocamos desde o início das domingueiras até o seu fim; foram muitos anos.”

Com o surgimento de mais bandas, o CMSP montou dois palcos no Salão Social para que os shows pudessem ser revezados.

“Isso acabou criando uma saudável rivalidade entre os músicos, que sempre disputavam para se apresentar melhor. Sorteávamos quem ia para qual palco ou quem ia começar ou terminar a domingueira. Fizemos muitos amigos entre os componentes das bandas. Amizades que perduram até hoje.”

Também faziam parte da banda que se apresentava nos palcos do CMSP Sylvio (baixo), Lotcy (teclados) e Marcos “Vermelho” Ficarelli (guitarra solo). Foi também com essa formação que a banda gravou seu primeiro disco.

A Watt 69 se profissionalizou e continuou realizando shows até o começo da pandemia, em 2020. Tinha 11 integrantes, e as canções dos
anos 1960 e 1970 faziam parte do seu repertório.

Infelizmente, um triste acontecimento encerrou suas atividades. “A banda completou 54 anos de existência no ano passado e só acabou porque o fundador da banda, nosso amigo Marinho, veio a falecer no começo de 2021. Uma perda irreparável para todos nós”, esclarece.

Para Helio Costa Manso, um dos fundadores da banda Sunday, o sucesso das domingueiras também se deve à estrutura oferecida pelo CMSP, pois “os pais tinham segurança em deixar seus filhos lá”.

“Não pegamos o início das domingueiras porque nossa banda foi formada em 1970, mas acompanhamos o auge dessas festas que atraíam milhares de jovens”, afirma.

A Sunday gravou vários discos, e seu estilo vem do classic rock e do pop passando ao rhythm & blues e aos sucessos dos anos 1980 e 1990, além dos grandes momentos da música italiana e francesa e dos inesquecíveis clássicos da Jovem Guarda e dos Beatles.

Atualmente, os músicos Gel Fernandes, Alaor Coutinho, Eduardo Leão, acompanham Vivian e Helio, que fazem parte da banda desde a
sua primeira formação.

Com muitas histórias para contar dessa época, a circulista Mônica Cardoso relembra os tempos áureos das domingueiras que foram
acompanhados de perto por sua família, afinal seus pais, a Sra. Maria Cardoso e o Sr. Wilson Cardoso, eram assessores da Diretoria Social e foram os responsáveis pela criação das domingueiras e da famosa boate realizada aos sábados à noite e voltada para outro público.

“Meus pais sempre foram muito atuantes e muito queridos aqui no Clube. Minha mãe participava do Departamento Feminino e fazia trabalhos voluntários aos domingos para angariar fundos para os funcionários. Como passávamos o dia inteiro no CMSP, ela resolveu criar bailinhos para ocupar a meninada”, afirma.

Segundo Mônica, as festinhas eram feitas, a princípio, em um pavilhão, no local onde hoje se encontra a Diretoria de Esporte, e contava com a inestimável ajuda do Sr. Afonso, que ia convidando toda a galera para participar.

Com a adesão cada vez maior, os bailinhos foram transferidos para o Salão Social, que acabara de ser inaugurado. E foi assim que tudo começou.

Acompanhada pela irmã Márcia Cardoso e pelas primas Nádia e Cristina Romero, Mônica não faltava a nenhuma domingueira. “Como éramos muito comunicativas e participativas, o grupo foi crescendo cada vez mais e as domingueiras ficaram conhecidas por toda São Paulo, vinha até gente do interior.”

Mônica também destaca como era a moda da época: casacões compridos que iam até o chão, vestido tubinho, shortinho curto ou minissaia e gola olímpica. Na maquiagem, muito delineador e cílios postiços.

Também relembra os shows dos novatos Roberto Carlos e Elis Regina e da presença nas domingueiras de alguns jovens que depois se tornariam famosos – como os cantores Fábio Jr, Tim Maia e Dudu França e o ator Marcos Paulo. “Tudo era muito divertido. Nós éramos amigas dos integrantes das bandas e as festas eram maravilhosas.”

Filha do sócio fundador, o Cel. Walter Costa, da Escola Superior de Guerra e precursor do ensino profissionalizante no Brasil, durante o governo de Laudo Natel, a circulista Egle Maria Costa também fala com carinho das famosas domingueiras e dessa época inesquecível do CMSP.

“Eu frequentei muito o Clube quando era criança e adolescente. Nadei e disputei voleibol. Ia às domingueiras quinzenalmente, pois as
intercalava com a boate que acontecia aos sábados.” E completa: “Amava as domingueiras. Chegava no começo e saía somente no final, aliás foi em uma delas que conheci meu primeiro namorado”.

Os anos 1960 e 1970 certamente viveram uma explosão de juventude que marcou toda uma geração!